O erro invisível na portaria que pode custar caro ao seu condomínio

Quando se fala em risco na portaria de um condomínio, a maioria das pessoas pensa imediatamente em invasões, furtos ou falhas de controle de acesso. Esses riscos existem. Mas há um tipo de problema muito mais comum, silencioso e, frequentemente, mais caro.

Ele nasce da combinação entre falta de treinamento, ausência de padronização e fragilidade na gestão de pessoas.

Não aparece no dia a dia.
Não gera alarme.
Mas se acumula.

E quando se materializa, normalmente surge em forma de processos trabalhistas, multas administrativas e indenizações.

O valor de “R$ 50 mil” é apenas uma referência simbólica. Em muitos casos, o impacto financeiro pode ser maior. Em outros, menor. O ponto central é entender como esse risco se forma e por que tantos condomínios convivem com ele sem perceber.


O que é o “erro invisível” na portaria

O erro invisível não é um ato isolado.

Ele é um ambiente operacional mal estruturado.

Alguns exemplos comuns:

  • Porteiros que aprendem a função observando colegas
  • Ausência de treinamento formal documentado
  • Procedimentos que existem apenas verbalmente
  • Mudanças de rotina sem atualização de instruções
  • Falta de reciclagem periódica

Na prática, o funcionário executa tarefas todos os dias, mas sem ter recebido orientação clara, padronizada e comprovável.

Isso cria um cenário de alto risco jurídico.


O tamanho real do problema no Brasil

Segundo dados do Tribunal Superior do Trabalho, ações trabalhistas relacionadas a:

  • Jornada de trabalho
  • Horas extras
  • Desvio de função
  • Adicional de insalubridade
  • Falta de intervalos

estão entre os principais tipos de processos que chegam à Justiça do Trabalho anualmente.

Relatórios do Conselho Nacional de Justiça mostram que a Justiça do Trabalho recebe milhões de novos processos por ano, e grande parte envolve organizações que não possuem estruturas formais de gestão de pessoas.

Condomínios residenciais estão dentro desse grupo.

Mesmo não sendo empresas tradicionais, são considerados empregadores perante a legislação.

Isso significa que:

  • Precisam comprovar treinamento
  • Precisam demonstrar orientação adequada
  • Precisam controlar jornada corretamente
  • Precisam definir funções com clareza

Quando não conseguem, o risco de condenação cresce significativamente.


Onde a portaria entra nesse cenário

A portaria é um dos setores mais vulneráveis porque:

  • Funciona 24 horas por dia
  • Possui escalas complexas
  • Envolve múltiplas responsabilidades
  • Tem alta rotatividade em muitos condomínios

Sem processos bem definidos, o porteiro acaba acumulando funções como:

  • Controle de acesso
  • Recebimento de encomendas
  • Monitoramento de câmeras
  • Apoio administrativo
  • Operação de sistemas

Se essas atribuições não estiverem descritas em contrato, treinadas e formalizadas, abre-se espaço para alegação de desvio de função.


Como um pequeno erro vira um grande passivo

Imagine um cenário simples:

Um porteiro sofre um acidente ao executar uma atividade que não consta formalmente como sua responsabilidade.

Se não houver:

  • Registro de treinamento
  • Descrição de função assinada
  • Procedimento operacional documentado

O condomínio pode ter dificuldade para comprovar que o funcionário estava apto e orientado.

O resultado possível:

  • Indenização por danos
  • Reconhecimento de atividade diversa
  • Pagamento retroativo de diferenças salariais
  • Multas e encargos

Agora multiplique esse risco por anos de operação e por vários colaboradores.

O problema deixa de ser pontual.
Ele se transforma em estrutural.


O papel da falta de treinamento

Treinamento não é apenas “mostrar como faz”.

Treinamento, juridicamente falando, precisa:

  • Ter conteúdo definido
  • Ser ministrado por responsável identificado
  • Ter data
  • Ter lista de presença ou registro eletrônico

Sem isso, para efeitos legais, o treinamento não existiu.

Mesmo que o síndico jure que explicou.
Mesmo que o funcionário confirme que aprendeu no dia a dia.

Em um processo, o que vale é prova documental.


Por que esse risco passa despercebido

Porque ele não gera dor imediata.

O condomínio continua funcionando.
Os moradores não reclamam.
A portaria parece operar normalmente.

Só que o risco está sendo acumulado em silêncio.

É semelhante a um vazamento interno em uma tubulação.
Por fora, tudo parece seco.
Por dentro, a estrutura está sendo corroída.


Quanto isso pode custar

Não existe valor fixo.

Mas, de forma conservadora, um único processo trabalhista pode envolver:

  • Verbas rescisórias
  • Horas extras retroativas
  • Multas
  • Honorários advocatícios
  • Custas processuais

Dependendo do período discutido, facilmente atinge dezenas de milhares de reais.

E isso sem considerar:

  • Tempo de gestão
  • Desgaste emocional
  • Imagem do condomínio

Por isso o número “R$ 50 mil” funciona como alerta, não como regra.


Como reduzir drasticamente esse risco

Algumas medidas práticas:

1. Descrição formal de função

Documento claro com todas as atividades do porteiro.

2. Procedimentos operacionais escritos

Como receber visitantes, encomendas, lidar com ocorrências, operar sistemas.

3. Treinamento inicial documentado

Com assinatura ou registro digital.

4. Reciclagem periódica

Anual ou semestral, com novo registro.

5. Auditoria de rotinas

Verificação se o que está sendo feito bate com o que está documentado.


Conclusão

O maior risco da portaria não é apenas quem entra sem autorização.

É um modelo de operação sem estrutura.

Condomínios que investem em processos, treinamento e documentação não estão apenas organizando a rotina. Estão protegendo financeiramente a coletividade.

Prevenção custa pouco.
Correção custa caro.

E, na maioria das vezes, o problema já está ali.
Só ainda não apareceu.